sábado, 31 de maio de 2008

Frenética sozinha com Frejat


Som alto
Vapor do banho
Mãos macias
Calcinhas minúsculas
Um pezinho macio
Esfoliantes no vitrô do banheiro
E ouvindo “Ela é puro êxtase!” o dia inteiro

Se prepara para o dia
Quer estar bem
Passa cremes no rosto, colo e mãos
Aumenta o volume
E vai dançando Betty Boops pela casa
Dança em frente ao espelho
Gentil com ela mesma
Passeia pelo quarto e procura
Abre o guarda-roupa
Não tem roupa!
Pragueja!
Desanima!
Maldiz!
Sai um “droga” da boca já com gloss

Brava, brava
Olha as gavetas
Vai até o varal
Mas como que roupa vai?
O telefone tá tocando
Abaixa o rádio
Esquece o telefone
E ela, parada com o dedo no volume
Só vem Frejat sussurrando baixinho:
“E-la-é-pu-ro-êx-ta-se!”
Arrepia-se
Abre um sorriso cúmplice

Mesmo sozinha no apartamento
Pega a roupa de sempre:
Já está pronta!
Pega as chaves
Os chicletes
E o diário
Ferve por dentro
Ninguém sabe:

Ela é puro êxtase!

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Outros sons

Quando a alma encosta o corpo
No movimento amoroso do ser
Gememos
E ninguém espera gemer
Porque é o som da dor e do amor
É o som sem planos de ser, íntimo
Mas quando sai, revela a nudez e presença da alma
Que também é paixão

Quando o gladiador sofre o golpe não esperado,
A mãe perde o filho
A torcida sofre na prorrogação
Ou algum homem experimenta a maciez da mulher
Então gemem
É o som solto
Sai sem permissão do corpo
É a alma falando que está ali
Por isso que o gemido não acontece todo dia
Se fosse assim, a alma deixaria o corpo

Quando alguém geme, a alma vai e volta
E quem ouve se sente gente
Estripitize-se = Beije...ou roube um beijo...

(Sabia que foi Francesca quem beijou Paolo? Rodin foi atrás dos dois talvez querendo um beijo. Isso não me sai da mente. E eles estão se beijando até hoje. O beijo silencia o coração selvagem).

“Líamos juntos a história de Lancelot(...). Estávamos sós e sem qualquer malícia. Mas por vezes, nossos olhares, encontrando-se, abandonaram a leitura e fizeram mudar a cor de nossas faces. Um trecho nos induziu ao pecado foi ao lermos sobre o beijo que o herói ousado depôs nos lábios da doce amante. Este aqui, meu companheiro para a eternidade, a boca me beijou ardentemente”. (a versão de Francesca de Rimini, extraída do Canto V, Divina Comédia de Dante Alighieri )

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Fly sustenido em aula de fonema orgânico

i29.photobucket.com/.../fragilidades.jpg

Flower
Love
Fly
Leia alto, pausado
Sinta a língua
Toque os dentes
E o céu da boca

E seja meu céu, meu som meio tom
Com palavras moles no meu ouvido
Passa a língua nos lábios meus,
E assim, sustenido:
Me eleva deste chão
Me leva
I wanna fly
Leve
Love
Flower
Fly


segunda-feira, 26 de maio de 2008


Estripitize-se = Esteja pronto(a) para as delicadezas...

domingo, 25 de maio de 2008

O marujo e os pulsos dela


Ela colocou uma música
Daquelas tocadas por povos antigos que viviam do mar
A música que encantou os filhos de Llyr
Em vilas antigas da Irlanda
E no alto da montanha, eu dancei pra você
Você viu meus pulsos, tão meus...frágeis em flor
mas quando punhos, fortes
Transes de amor

O vento dançava com os cabelos dela
Roupas leves
O vento dançava com ela
O vento, você
Eu, ela

Girava, girava... e é tão bom girar, meu amor
Eu olhava teu rosto
E com os meus olhos
Afaguei a tua pele
Quem disse que só se toca com as mãos?
A música ainda rege os trovões
E corta a alma de quem é doce
Flautas, harpas e gaivotas
Num magnífico concerto

Por causa de um amor tão grande,
como o mar e os rochedos que seguram esta ilha,
eu danço pra você em todas as tardes
E quando a noite se prepara pra jantar a alma dos amantes,
dentro dos pulsos,
você me vê toda, transparente
Alma, coração e mente

Vem querido
Vem
Seremos jantados pela noite
Deita aqui do meu lado
Vê que lindo é este céu e mar
Este amor atravessará todos os mares

E não há marujo que,
por mais ilhas visitadas,
esqueça do amor guardado,
nos pulsos da mulher amada

Poema para os que buscam

O homem vai pra perto do mar
Pra entender os segredos da vida
E tudo que vê, é a névoa se formando no horizonte
Ele não enxerga nada
O ar vai ficando úmido
Se alguma nau há, não sabe
Bem perto da areia, vão se formando partículas de água
Suspensas
Molham a face
Os cabelos
Os lábios ficam levemente salgados
Foi o beijo das águas
O segredo do mar

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Estripitize-se = Ame...

A complexidade da personagem estrangeira



Na sua consciência não está nada editado. Neutra, neutra, por vezes chegando a irritar. Atravessou a plataforma da estação. Atravessou a multidão pisando o chão, nada sentiu. Alguém sempre esbarra em nós. Mas quem fica? Parece tão pura nessa sua consciência atual (...), mesmo longe. E os pensamentos escorregam líquidos até o diafragma. Sem ar, sem ar. Quem nunca esteve estrangeiro? E as testemunhas frias na hora da solidão, quem são? Porque numa consciência clandestina, não há vândalos ou subversivos. Só você.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Vem, Mon Chéri...

Ei! Psiu! Vem comigo andar pela cidade, baby! As ruas são lindas. Olha aquelas frutas. Há tanto tempo aquele vendedor está ali sem vender nada. Vem, baby! Anda comigo. Quantos bancos pra sentar! Hoje são todos nossos!
Naquele hotel estão hospedadas pessoas que não sabem viver. Que coisa maluca... A vida é um sonho. E hoje estamos aqui. Ouve essa música. Gosta? Tira os sapatos! Dá a mão. Sente e vê que tudo é teu. Vem, Mon Chéri. Ninguém se perde. Ninguém se acha. Ficamos aqui: em nós; e somos de repente visitados. Então fique só em você. Aí, nesse lugarzinho pleno e suave. Não irei te levar tão longe para que te percas de ti. É só uma volta. Em mim. Em ti. Em nós. Bem atados, flutuando pela cidade. Um rodopio no ar. Um plié. E Madeleine Peyroux cantando para nós.

domingo, 18 de maio de 2008

Mães que também são filhas, loucas, felizes, bonecas, cheirosas e amigas frenéticas

( cida, eu, del, mari e dé no dia das mães)


(cida, dé, eu, del e mari - o garçon ficou louco com a gente )


You, não sou dessas


eu leio tanto, meu amor. eu estou guardando todas as palavras no meu estômago. para quando você chegar. se eu fumasse, eu fumaria enquanto você não vem. os pedaços do dia são assim: eu leio. leio tudo. meus olhos procuram coisas novas. tendências dos moradores dos grandes centros. daqueles que têm amigos em guetos. que têm todas as idéias , mas não o dinheiro. eu olho para o telefone em cima da cama. eu rodeio a cama e me deito. não. não posso ficar aqui. essa cama tem correias. me prendem. não são boas para mim e o quarto é jaula. e é sempre a mesma coisa. vou andar por aí. talvez me cure. toda virtuosa tem seus vícios: não se engane. eu ainda vou ser mais legal que hoje. mais bonita e mais sexy que agora. algumas coisas são pra mim. faço pra mim. outras, também milhares, pra você. pra quando você chegar. eu leio tudo, you. mas eu vou na frente. na frente do tempo. eu espero você. mas nunca estarei no mesmo lugar. não. não, you, não sou dessas de esperar. parada, não. te espero andando. por isso, ande you. corra, you! estou fazendo mil coisas, minhas coisas. no meu ritmo. porque você, you, não quer uma mulherzinha. você quer uma fada urbana, uma boneca travessa, irreverente emília magistral. que só se acalma nos seus braços. você vai me ver enquanto durmo. isso eu já sabia. e todas as minhocas. tá vendo? o tempo voa. você me chama, you. eu tô por aí. não sou dessas.

sábado, 17 de maio de 2008

Camisinha no coração


Tímida
Com tendências a gostosa
Tem um soneto na segunda
Já pronto na língua doce
Bem às seis da manhã
Tem tatuagem secreta
E sente pavor do amor
Foge antes que ele venha
Se esconde em qualquer casa pequenina
Só pra enganar a tempestade
Que afeta o coração de menina
É mais segura entre cogumelos e duendes
Estuda astrologia
Mas não pode vacilar
Muda de signo quando quer
Usa meias imprevisíveis
Pensa besteiras enquanto passa pelos homens
Quase em frente à C&A
Eles nem imaginam as sutilezas de sua lingerie
Acredita no sol sempre atrás das nuvens
Solta mantras melhor quando em dias de vento
Gosta da dança dos cabelos nos olhos
E os dedos tentando arrumar o que o vento assanhou
É quase a fim dela mesma
Enquanto prepara o leite só de meias
Gosta da casa das tias
Conta segredos pras primas
Faz um tempo
Revestiu
Desistiu
Do amor
Revestiu o coração
Com camisinha da marca "Não confio nem em flor"
Mas acorda ainda à noite
Sonhando
Sonha para passar o tempo
De não amar
Espia as janelas dos outros
Da janela do sétimo andar
Mera coincidência alguém acordado
Ouve o barulho dos carros
As buzinas não são pra ela
Tem esperanças no sábado
Romanceia no domingo
Vai para o teatro, para o cinema
Assiste a tudo sobre Marte e Vênus
E o coração
Hermético, fechado
Dilacerado, mas protegido
Não deixa o amor entrar

Um coração de sábado


A música romântica do rádio caiu nesse meu coração doído
Coração de sábado
Que quer viver, mas não sabe
Que quer sentir, mas sofre
Então se encrua
Se afasta
Se debanda para outras rotas
E sempre só
Segue só
Como um pássaro diferente do bando
Pousa em ilhas
Pousa em pedras
O mar bate nas pedras
E o coração acorda de novo

quinta-feira, 15 de maio de 2008


Estripitize-se = Romanceie a vida...

domingo, 11 de maio de 2008

Não sabe que sente, mas sente

Engarrafei o poema.
Todos os poemas estão engarrafados,
Todos os poemas são lançados ao mar.
São entregues às pessoas.
Eu pensei que escrevesse pra mim,
escrevo para os outros.
O outro é que me interessa.
Meu poema não é espelho,
é desterro.
Posso banir todos os medos.
Meu poema não é cachaça,
é absinto.
Eu sinto.
Mas de repente vai dar oito horas.
A lucidez transforma o poeta em funcionário público.
Ele disfarça e segue para o trabalho.
Fica cinza. Da cor do arquivo no canto da sala.
Um amigo liga e fala da arte depois do expediente.
E volta tudo:
O "sinto"
O absinto
O ocaso
O rabisco
No guardanapo sobre a mesa
O poeta fica rosa

E todos os poemas são lançados ao mar
Os peixes lêem poemas em todas as garrafas de vidro
Nos oceanos azuis

E as pessoas felizes e tristes param para os poetas
Que são transeuntes na calçada da alma
Eles falam daquilo que não se sabe que sente
Mas sente

sábado, 10 de maio de 2008

Tão perto


Ela acordou devagar no meio da noite
Ele já estava acordado sem conseguir relaxar
Ela ficou na cama, de olhos fechados, sentindo o ar frio
Ele foi cuidar dos passarinhos e limpar a área de serviço
Ela começou a se espreguiçar. O dia daqui a pouco nasceria
Ele hoje iria à feira
Ela foi tomar banho com sabonete de erva doce
Ele saiu cedo e foi comprar o peixe para assar no domingo
Ela ficou andando de toalha pela casa
Ele passou na casa da mãe para ver se estava tudo bem
Ela deu comida para o gato e ficou ainda um tempo olhando pela janela as casas da vizinhança
Ele fez uma fezinha no jogo
Ela mandou um torpedo para a nova promoção
Ele comprou um cortador de unhas
Ela secou os cabelos e passou óleo de banho no corpo
Ele se sentiu só. Não queria almoçar na mãe. Foi para casa.
Ela ligou o rádio bem alto e deixou o Frejat cantar: "Ela é puro êxtase!"
Ele ligou o rádio no programa que o pai ouvia quando era vivo
Ela estava se sentindo Beth Blue misturada com Madonna
Ele limpou o violão e sentou no sofá
Ela colocou a bota, toda a roupa e uma grande e pesada jaqueta
Ele ligou o ar quente e se achou sem graça
Ela andou pela cidade imaginando ouvir o Cold Play
Ele dormiu depois do almoço
Ela pegou um cinema sozinha
Ele acordou com o gol do Palmeiras
Ela continuou a andar pela cidade
Ele fez café e bebeu
Ela pediu uma batata recheada
Ele pensou em desistir de ter telefone. Ninguém ligava pra ele
Ela desligou o celular
Ele ligou a TV pra ver os lances do futebol
Ela foi para a livraria comprar aquele livro
Ele pensou que sempre é tudo tão igual
Ela pensou que a vida é tão inédita e que a qualquer momento iria encontrar um cara especial
Ele abriu uma cerveja e nem ouviu o telefone tocar. Era o Zé para chamar para o show
Ela pensou qual o cheiro teria o seu amor
Ele pensou no futebol
Ela sentiu um arrepio
Ele abriu mais uma latinha de cerveja e fez aquele barulho
Ela estava passando e virou o rosto para olhar de onde vinha o barulho
Ele, pela primeira vez, estava assistindo ao futebol com a porta da sala fechada
Ela não o viu
Ele gritou com o juiz
Ela ouviu uma voz de homem
Ele nem imaginava que a possível mãe de seus filhos estava passando por ali. Tão perto
Ela atravessou a rua, dobrou a esquina e entrou no seu prédio
Ele desligou a TV porque seu time perdeu e escutou Tim Maia cantando
Ela colocou o pijama e os filmes no dvd
Ele se sentou na varanda. Estava anoitecendo. "É primavera...Te amo..." Tim Maia não parava
Na outra semana ela decidiu ir embora para outro estado. Um novo lugar
Ele nunca a conheceu
E a vida seguiu


quinta-feira, 8 de maio de 2008


Estripitize-se = Ouça outros sons...

terça-feira, 6 de maio de 2008



Estripitize-se = Deixe-se levar...

segunda-feira, 5 de maio de 2008

esplendor-na-relva.blogspot.com

Estripitize-se = Solte-se...

Sessão da tarde - Quem me segura? Quem me dá mão?


Eu gosto de música. Irlandesa, brasileira e cubana. Gosto dos sons. Dos acordes. Gosto daqueles trompetes tocando abertos, abrindo meu peito também. Eu gosto dos músicos atrapalhados. Gosto do vestido vermelho da cantora no cenário cinza, do clipe de ontem. Gosto daquele cara que vi na TV tocando teclado pendurado no corpo e batera ao mesmo tempo, andando pela cidade sozinho. Gosto dos caras que tocam nas ruas. Eu gosto de tanta coisa. Eu gosto desse povo que não anda na mesma altitude das gentes. Está um nível acima, flutuando. Eu gosto da palavra "she" e da palavra ""love" em inglês. Gosto das palavras moles e macias em qualquer língua. Eu gosto dos cantores que não têm a voz tão bonita mas cantam com o coração. Eu gosto das modelos que lutam por causas humanitárias. Eu gosto daquelas mulheres gordas, rechonchudas, cantando em igrejas do sul "Oh, happy day!" Eu gosto de segunda-feira porque meus filhos acordaram sonhando. Então ensinei tudo a eles. Eles entenderam que eu gosto de gaita. Que eu queria ter ido com o Forest. Um dia eu ainda vou. Eu tenho vontade de sair andando por aí. E não é fugir. É só sair, com pouca coisa, pouca bagagem. Sair correndo, de bike ou tênis. E ver baleia bem perto porque andarei sempre pela costa. E ver pontes vermelhas. Acordar com outras sensações em outros lugares. Andar. Andar até o pé falar para eu parar. Hoje estou feliz. Mas tudo de que preciso hoje é sair. Ouvir um cara ferrado tocando um blues. Conversar com gente boa e beber cafés de madrugada, em reuniões culturais. A Irlanda será o meu quintal. Eu quero ver meus amigos felizes. E andar. Andar pelo mundo. Quem me segura? Quem me dá a mão? Meu pai já teve medo de mim. Minha mãe sempre me amou. Foi por isso que eu cresci. Obrigada TV! Por todos os filmes da sessão da tarde que me fizeram acreditar no amor, nos sonhos. Então meus filhos disseram hoje acreditar também. Então eu fiz o melhor que uma mãe pode fazer. E ainda sou tão criança. Eu ainda vou andar pelo mundo e aparecer no Fantástico. Depois terei uma casa pintada de verde. Desejo menos carros nas ruas. Menos também é bastante quando se quer o melhor. Sou a favor de todos os filmes que me fazem sonhar. Eu gosto dessas cantoras novas. De vozes roucas e frias. Eu gosto de caras com jeans surrado. Eu sempre gostei disso. Eu terei mais beijos enquanto preparo a comida na cozinha de qualquer casa de qualquer país. Um beijo no pescoço, me segurando por trás. Gosto de ver comerciais de TV inteligentes e clipes bem bolados. Por horas. Pararei nos bares que tiver TV. Eu gosto de luz vermelha. Gosto. Amo o escurinho do cinema. Queria ficar ali enquanto todos vão embora e assistir com você ao filme de novo. Gosto de nevoeiro. Me deixa feliz. Gosto do apito do navio mais que de trem. Eu gosto de feiras. Eu gosto de peixarias. De ver homens trabalhando com peixes. Tirando tudo o que pescaram, com aquelas botas e capas. Eu gosto de lojinhas. De livrarias pequenas. De lojas de temperos. Mesmo depois da casa verde, eu continuarei andando. Porque eu gosto do timbre do pé no chão. Batendo no asfalto ou na calçada. Adoro calçadas. E quero gostar muito mais de mais coisas. Hoje me basta a sessão da tarde. Amanhã irei andar. Meu vestido vermelo é minha poesia. Minhas palavras, um acorde de violão. Ouça! Eu vou. I will go.

domingo, 4 de maio de 2008

Amor de dedos


Às vezes desconfio que o que é mais frágil
É mais forte
Só porque não agride
Não compele
Simplesmente é
Frágil como um toque de dedos
Já vi amores fortes
Repentes
Tempestuosos
Já vi amores que vão chutando portas
Impondo horários
Formatando agendas
Carregados de bicos
Por isso prefiro os frágeis
Os suaves
Os plenos
Amor de dedos
Toques tímidos
Poéticos e respeitosos
Porque simplesmente são
Tão natural como a frescura de uma manhã de maio
Como a bela fotografia premiada de um filme
Como trilha sonora macia
E esses amores frágeis
acompanham a vida,
o crescimento e a clausura do outro

Então os anos passaram
Já estão velhinhos
Ela pede um chá
Ele traz tudo acompanhado de cápsulas
Não quer que ela morra
Cuida dela como a flor que esconde do sereno
O sereno é o tempo
Aquece aquela mulher com cobertores
Com suas mãos tão diferentes de antes
De tanto trabalhar em diferentes lugares
Não pensou amar assim
Trabalhou de tudo na vida
Só pra ficar com ela
E foi bom
Foi suave
Porque ninguém lhe pediu
O amor veio
E perto dela falava de tudo
Eram íntimos
Cúmplices do belo
E foi assim
Como inspiração sem um moleskine por perto
Não esperava
Veio frágil como um verso
Ninguém ouviu
Só ele no quadrado do quarto
Foi entendendo aquele amor
Como conta-gotas na sua garganta
Em frágeis sabores de cereja
Cheio de intimidades rubras
Cheio de dedos
Terno
Suave
Frágil
Amor

sábado, 3 de maio de 2008

Um amor frágil

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No meu país haverá amantes por todos os lados
Com roupas esvoaçantes ou não
Lá todas as histórias de amor serão felizes
E nunca proibidas
Os olhos se buscarão
E verão no outro a parte feliz do ser
Não haverá amor platônico
Coroados serão os que confessarem
a dor do coração selvagem
No meu país ninguém sofrerá por amar demais
O amor lá, diferente daqui,
será recompensado
Sempre haverá uma canção nova
Para superar a serenata anterior
Tudo será sem reservas
Como frágil e livre
deve ser o amor

Novos caipiras

http://www.bygoogleearth.com/images/brasile/tiradentes3.jpg

Há lugares que me habitam
Há cidades que me povoam
Como aquelas do interior
Com cheirinho de mato
Quietude na sombra
O tempo pára, sabe?
Uma solidão curtida
Um jeitinho vagaroso
Um gostar de doce caseiro
Um ar íntimo
Esse quase "ser caipira"
Esse sofrer na cidade grande
Tendo saudade do mato
Das plantas e de quintais
De andar na rua
Eu tenho algo de Minas quando conheço alguém
Quando me apaixono
Quando escrevo
Eu tenho algo de Minas quando vejo Drummond
ainda mineiro no Rio
Eu não consigo ser superstar
Eu consigo ser simples
Eu gosto é de pão de queijo
Cafezinho passado na hora
Hoje eu queria estar em Minas

Tortas na janela: somos todos adolescentes

Precisa escrever um romance
Mas não sabe como
Acha tão surpreendente estar viva
Nem imaginava que iria ser assim
Não conta a ninguém
Mas há dias em que sente uma felicidade de "doze":
Doze anos!
Como se descobrisse que tem a vida
Que logo tem baile
Que vai ter seios
Que será mulher!
Vê o futuro e ri com as mãos na boca

Já viveu alguma coisa
Pra contar certos sabores
Mas ainda não consegue escrever romances
Porque nunca viveu um romance
Não inteiro com gosto de céu
"Você é o meu céu!"
Algo assim, sabe?
E olha que já viveu alguns "doze"

Por isso, em certos dias quando acorda,
Ainda se sente no quarto de menina
Nem parece que a cama é de casal
Parece que logo a mãe baterá a porta
Que o cheiro de café chegará até o quarto

É tão deliciosamente inexperiente
Como nos desenhos com tortas na janela
Com aquela fumacinha chamando o Pernalonga
E ele flutuando faceiro
Como quando assistia à Poderosa Ísis
Imitando-a na sala
E clamando pela força dos ventos

Dá tchau para crianças em ônibus e
queria muito ver disco voador
Almoça sorvete
Compra presilhas
Fica encantada com miniaturas

Mas faz muita força para entender protocolos
Não entende quem fez as regras
Um dia ainda vai transgredir
Só não sabe como

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Eu te espero



Oi
Tudo bem?
Quer passar o dia comigo?
Sem muitas aventuras,
prometo
Mas onde você anda?
Eu nem sei
Minha amiga disse que você pode nem estar nesse plano
E agora?
Eu grito?
Você vai me ouvir?
A quantas quadras você estará de mim?
Nesse país?
Eu decidi andar por aí
Cuidar de mim
Imagina! Sou feliz!
Adoro os meus pezinhos que me levam
Onde os sonhos piscam para eu chegar
Mas e você?
Onde estará?
Queria que você visse como é bom estar
COMIGO
Prometo serei leve
Delicada
Como tua mãe
Falarei baixinho nas primeiras horas do dia
Despertarei tua fome com meus cheiros
Sei que você achará graça
E até sente falta de "não sabe o quê"
Tem nada não
Eu te espero

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Cosméticos

Um azulejo branco
Uma banheira lisinha
Gelado
Tudo gelado por ali
Da vidraça, o céu nublado
Um branco gelo
A toalha enrolada no corpo que achou seu
Mãos delicadas
Quase arranhadas pelo algodão
Um tônico para fechar os poros
Fechado o coração já está
Vive no limiar do solitário
Os rituais cada vez mais raros
Amar custa caro
Um creme facial
Pinceladas brancas na tez quase só
Movimentos circulares
Que poderiam perfeitamente
Ser em outra face
Um cheiro de lavanda
Uma violeta assiste a tudo
Qualquer homem derreteria,
como os azulejos,
a seus pés
Mas não sabe disso

Mulher-cereja



Ele se surpreendeu com aquela doçura. Beirava quase um leite condensado descendo garganta abaixo. Mas conteve-se em apenas observar. Quando chegou à casa dela, observou uma zebra em cima da geladeira, em vez de um pingüim. Embora ambos mamíferos fossem em branco e preto. Concluiu assim que ela sempre tinha uma forma de transgredir, ainda que sutil. Teve medo. Quase achou sua casa parecida com o apartamento de Hepburn, em “A bonequinha de luxo”. Ela, meio atrapalhada, serviu refrigerante. Ele, mesmo sendo tutor de uma úlcera, bebeu.
Como negar alguma coisa a ela? Como? Se ele tinha tanto a pedir? A TV da sala ficava em cima da máquina de costura. Ela mesma fazia suas roupas. Mas tão pequena - ele pensou. Quem tiraria aquela TV dali? Em exatos 10 segundos sofreu o ciúme dos que não têm nem por que ter ciúme. Ele não era nada seu. Mesmo assim, desejou animadamente levar o cachorro de pelúcia dela para tomar sol. Antes, antes mesmo de tudo – do beijo, do toque, do amasso – ele queria ter o que fazer por aquela mulher.
Ela ofereceu cerveja gelada, mostrou uns vinis antigos e uns mapas da França. Precisava ser amigo apenas e se controlar. Precisava ser amigo. Quase um anjo naquele apartamento anos 50. Um anjo. Não um animal. Segurava-se. A boca dela rosa. As mãos mexendo e dançando no ar sem parar, enquanto ela falava, falava, falava.
_Você não vai me beijar? – perguntou ela.